segunda-feira, junho 26, 2006

Feiras de artesanato: diversão e cultura na cidade de São Paulo

Expor mercadorias em feiras é um hábito muito antigo, quase tanto quanto a própria noção de comércio. No período final da idade média, as rotas de mercadores da Europa se transformaram em ponto de encontro para a compra, venda e troca de produtos. Em especial, nos pontos em que essas rotas se cruzavam, desenvolviam-se feiras periodicamente, sendo que as maiores se localizavam na região de Champagne, nordeste da França. Vilarejos e cidades cresceram e fortaleceram as relações comerciais em torno dessas feiras, dando um empurrão decisivo na burguesia que se desenvolvia de forma cada vez mais convincente.


As feiras perduram até hoje, sejam elas voltadas ao comércio de alimentos, sejam servindo de vitrine e meio de sustento (ou complementação de renda, em muitos casos) para artesãos. A reportagem do Portal SampaOnline percorreu algumas das feiras de artesanato da cidade e traz nesta matéria dicas, histórias, problemas e soluções encontradas pelos artistas para a falta de apoio, que, em muitos casos, se mostra o principal empecilho para o maior desenvolvimento desse tipo de negócio.


Benedito Calixto: variada, bonita e confusa


Aos sábados, a praça Benedito Calixto, em Pinheiros, fica tomada por barracas de cores variadas. Já na esquina com a rua Teodoro Sampaio é possível ver os primeiros artesãos, hippies que confeccionam brincos, pulseiras e penduricalhos de formas e preços variados.
O que mais chama a atenção nessa feira é a variedade, não só de mercadorias, mas de gente. De senhoras idosas a adolescentes com camisetas de bandas de heavy metal, tudo remete à mistura. A democracia também é verificada nos produtos expostos: artesanato e quitutes caseiros dividem espaço com antiguidades. Vitrolas, câmaras fotográficas, ferroramas, esculturas, móveis (dá para montar uma sala de estar facilmente comprando na Benedito Calixto) e utensílios domésticos são atrativos para gente de todas as idades.
"Gosto dessa feira porque ela tem um clima de casa da vovó", diz Danielle Sanches, 22 anos, que também afirma freqüentar o local com menos assiduidade do que gostaria. Para ela, as antiguidades, juntamente com as bolsas artesanais, são o principal atrativo do local. O ponto negativo da feira fica por conta da pouca organização na montagem, o que muitas vezes dificulta a circulação na praça e adjacências.
Para quem quiser dar uma esticadinha, vale a pena conferir as apresentações de música ao vivo que ocorrem na rua Teodoro Sampaio, um pouco acima da praça, na área que concentra as principais lojas de instrumentos musicais de São Paulo. Nos sábados à tarde o movimento é bastante intenso e, com sorte, é possível trombar com famosos da música brasileira fazendo suas compras.
A estação Clínicas do metrô não fica muito longe da praça Benedito Calixto, e as ruas da região são servidas por diversas linhas de ônibus, oriundas principalmente das regiões Sul e Sudoeste da cidade.


Moema: opção chique para vários dias da semana


A feira da Praça Nossa Senhora Aparecida, em Moema, que fica ao lado da igreja de mesmo nome, é destacada pela Prefeitura em virtude do alto nível dos produtos expostos. Artesanato fino, crochê e variados tipos de comida podem ser apreciados nas quartas, quintas e sextas-feiras. No entanto, o dia de maior movimento é, sem dúvida, o domingo, quando cerca de 70 expositores se reúnem no local.
Conversando com os artesãos, é possível perceber que a feira é não apenas um local de comércio, mas também uma oportunidade de conhecer pessoas. "A gente pega muita amizade e sempre se reúne para tomar um café", diz dona Vera, expositora, falando sobre o relacionamento com os colegas. Muitos deles participam das feiras como forma de ajudar no orçamento doméstico, ao mesmo tempo em que mantêm acesa a paixão que sentem pelo ofício.
O numismata Milton diz que trocou o trabalho de escritório pela vida nas feiras de artesanato, e que não se arrepende de tê-lo feito: "Tenho meu horário, faço o que gosto e não preciso agüentar chefe". Em tempo, numismata é a pessoa que se dedica ao comércio e à organização de moedas, cédulas e medalhas. Na feira de Moema, é possível encontrar notas de dinheiro do Iraque e moedas do Império Bizantino (o Império Romano do Oriente).
Segundo os expositores, a feira conta com o apoio da maioria dos moradores da região, bem como da Igreja Nossa Senhora Aparecida. Eventos culturais e apresentações de bandas ocorrem periodicamente. A dica gastronômica fica por conta do pão de mel recheado, vendido a R$ 2,00. Linhas de ônibus que percorrem o corredor da Av. Ibirapuera são a melhor alternativa para aqueles que quiserem deixar o carro em casa: a região não é servida pelo metrô.


Vila Mariana: organização diferenciada


Ao contrário do que ocorre na maioria das feiras da cidade, os artesãos que expõe suas mercadorias no Largo da Vila Mariana, em frente à estação Ana Rosa do Metrô, não precisam carregar e armar suas barracas. Nos sábados pela manhã, os organizadores chegam, limpam o local e deixam tudo arrumado para que os expositores apenas decorem seu "território" e disponham seus produtos.
Walter Haucke, diretor-presidente do Centro Cultural e Artístico da Zona Sul de São Paulo e organizador da feira da Vila Mariana, explica que os artesãos apenas pagam uma taxa de manutenção mensal para ter esse conforto. "Nesse aspecto, somos uma feira modelo em São Paulo", ele afirma.
Haucke também faz questão de explicar que todos os expositores assumem o compromisso de não faltar à feira, bem como de manter a organização e o compromisso com o público freqüentador. "Esse período de início de ano ainda é pouco movimentado, pois muita gente está de férias", ele complementa.
As dificuldades enfrentadas por quem monta essas feiras não são poucas. O organizador ressalta que, no começo, o local em que as barracas são montadas era repleto de indigentes, que dormiam e passavam o dia lá: "A gente trouxe o assistente social para ajudar no encaminhamento deles". A falta de divulgação e o excesso de burocracia ainda são obstáculos a serem superados.
A feira da Vila Mariana também conta com apresentações culturais e barracas de comidas típicas. O artesanato é bem representado pelas pequenas esculturas, confecções, acessórios de decoração, brincos e pulseiras. Até 75 expositores se reúnem aos sábados. Para chegar, basta pegar o metrô até a estação Ana Rosa.


Omáguas: uma feira recente


Muita gente que vai ou volta da Fnac, livraria que fica na Av. Pedroso de Morais, em Pinheiros, acaba passando pela feira da Praça Omáguas, que ocorre aos domingos, das 9h às 18h. Ela conta com cerca de 60 expositores que exibem principalmente artesanato e artes plásticas de alta qualidade. Além disso, grupos musicais e trupes de circo também se apresentam em ocasiões especiais.
A feira de Omáguas é recente: foi criada há apenas três anos. Para Licinio Baumgratz, membro do conselho de moradores que, junto com a Prefeitura, cuida de sua organização, esse fato explica a freqüência um pouco menor de visitantes: "A feira tem pouco tempo, ainda não firmou um público grande".
No entanto, o próprio Licinio diz que as pessoas que freqüentam o local fazem parte de um público mais selecionado, gente cativa que acaba fazendo da feira de Omáguas um programa regular. Ele ainda faz coro com as vozes de outros envolvidos nas feiras de artesanato de São Paulo: todos afirmam que os meses de janeiro e fevereiro são de baixo movimento, período de vacas magras para os artesãos.


Seleção

As feiras de artesanato da cidade são regulamentadas pela Secretaria de Abastecimento. Os expositores passam por um processo de seleção no qual apresentam seus produtos e são avaliados por comissões das subprefeituras. Vale a pena prestigiar o trabalho desses artistas nas diversas feiras da cidade. Além das que já foram citadas nessa matéria, há outras, como a do Masp, a do parque Trianon e a do bairro da Liberdade. Mais informações podem ser obtidas no site da Prefeitura


Fonte: QueroArte - Artesanato com a cara do BRASIL